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CONGRESSO DE VIDA RELIGIOSA E TEOLOGIA LATINOAMERICANA

Bogotá - Colômbia

Uma palavrinha introdutória...

 

            Penso que não posso deixar de dizer uma palavrinha sobre o Congresso de Vida Religiosa ao qual tive a alegria de participar recentemente em Bogotá (Colômbia) e também sobre o impacto que me causou ver tanta gente reunida por uma única causa. Por um lado, louvar e agradecer a Deus pelos 50 anos da CLAR e, por outro, perceber a importante colaboração do caminhar da Vida Religiosa em nosso continente, com seus diferentes carismas e espiritualidades, para o enriquecimento da Teologia Latino americana. É um caminho trilhado passo a passo nestes 50 anos que teve o seu ápice na realização deste Congresso. Foi realmente um momento de celebrar, mais uma vez, o Deus da Vida presente em nossa história.

                Já se passou um mês e, precisamente, no passado dia 22 de junho estávamos encerrando o nosso congresso. Mas, quando me recordo daqueles dias, o meu coração se enche de alegria e se me confirma a esperança e o desejo de seguir respondendo ao Senhor e ao seu chamado, não obstante as dificuldades que nunca faltam.  Confirma-me também que a Vida Religiosa Consagrada está muito viva em nosso continente. Certamente que passa por turbulências e fortes sacudidas, mas, bendito seja Deus! Quem sabe, como Vida Religiosa Consagrada, estamos tomando um rumo que não é o mais conforme ao que nos pede o Senhor. E aqui me vem, entre outras lembranças, o que dizia um dos palestrantes vindo da Argentina – “A la Vida Religiosa se le há pegado muchas cosas que no le pertenece”. E a isso creio que é necessário que estejamos muito atentas porque são coisas muito sutis do dia a dia, quase que insignificantes, mas a longo e até curto prazo, podem nos fazer muito mal e até nos desviar da meta onde, com a graça do Senhor, nos propusemos alcançar.

Sobre o Congresso

 

            Durante os dias 20 a 22 de junho a nossa casa comum foi o Colégio dos Agostinianos Recoletos, um grande colégio no coração de Bogotá, com capacidade para acomodar a todos os que vieram e ainda sobrou espaço. Já de manhãzinha, pouco a pouco iam chegando religiosos e religiosas de todas as partes de América Latina e do Caribe para participar do Congresso que teve como título: “Aportes de la Vida Religiosa a la Teologia Latino americana y del Caribe. Hacia el futuro”, para que “vayan y den fruto y que su fruto permanezca” (Jo 14, 15). Para a minha alegria havia um bom número de brasileiros e dias depois fiquei sabendo que, na Assembléia da CLAR, que aconteceu após o Congresso, foi eleito como presidente da mesma, um brasileiro, o Irmão Lassalista Paulo Petry. E foi muito bom ver que lá também estavam participando no meio do povão, além da Diretoria da CRB Nacional e alguns outros, os já conhecidos: Irmão Nery, Márcio Fabri dos Anjos (Redentorista) e o nosso querido Padre Libânio que deu um show de simpatia e sabedoria profunda regada com uma enorme carga de simplicidade, apresentando-se mais como um menino brincalhão que como um destacado teólogo de renome internacional. Penso que nisto está realmente a verdadeira sabedoria, naquele que vai chegando como quem não sabe nada e depois, simplesmente, diz tudo o que pensava com a maior profundidade, sem complicar. Ele deu o seu recado e foi muito aplaudido por todos, e de pé.

                Éramos quase mil congressistas procedentes, praticamente, de todos os paises de América Latina, entre os quais se destacou uma grande presença jovem. Tudo muito bem organizado, preparado e coordenado pela Presidência da CLAR e pela Conferência dos Religiosos/as de Colômbia.

                Cada dia tinha início com a Celebração Eucarística, sempre celebrada com a tranqüilidade e a profundidade que requer este momento. A celebração do primeiro dia foi presidida pelo então presidente da CLAR, Padre Ignácio Madera, pequenino na estatura, mas grande no espírito e no compromisso com a Vida Religiosa. Tão pequeno que, ao falar, não podia colocar-se atrás do ambão, pois, ao contrário, não podíamos vê-lo.

                A primeira conferência magistral foi com Fr. Gustavo Gutierrez. Sim, ele mesmo, o pai da Teologia da Libertação. Fiquei feliz por vê-lo e o seu nome e a sua fala me transportaram nos meus tempos de noviciado quando o assunto não era outro que “Teologia da Libertação” e por causa dela discutíamos facilmente mesmo sem compreender profundamente o alcance de tudo isso. Também ele muito pequeno, foi chegando com o seu bastão porque já tem a sua idade. Infelizmente não temos a sua conferência por escrito porque, segundo ele mesmo disse primeiro gosta de falar e depois escrever. Foi falando com tom firme e suave ao mesmo tempo e nos recordou, entre outras coisas, que irromperam (e continuam irrompendo em nosso presente) os pobres, o desprezo pelas minorias, os autóctones, as mulheres, enfim, os diferentes... A figura profética de João XXIII nos convida a ler estes sinais dos tempos desde o Vaticano II, seguido por Medellín e as demais conferências e, por último, retomado em Aparecida. Gustavo Gutierrez tocou a fundo esta questão e, como que movido por uma força superior, lançou algumas perguntas que ainda esperam por resposta. Entre outras, “como dizer aos pobres do continente que Deus os ama? Como falar do Deus da vida em um continente marcado pela pobreza, pela injustiça? E, sobretudo, um continente marcado pela fé cristã e, ao mesmo tempo, marcado pela morte? Os pobres morrem por enfermidades que a humanidade já superou. Por que os pobres morrem antes de tempo?” São questões para serem pensadas e respondidas por que “os pobres continuam chegando de diversas formas”.

 Muito significativo também o que ele foi colocando sobre as “duas memórias de Jesus”, referindo-se à Instituição da Eucaristia e ao Lava-pés – que, na verdade, é uma só – “Fazei isto em memória de mim”. Fazer memória não é recordar o passado e muito menos, com um sentimento de nostalgia. A memória é o presente do passado, é a promessa que se realiza hoje – Jesus está presente hoje. E a memória desemboca em uma prática; se fazemos memória é para praticar. “Façam isso em memória de mim”. Não se refere somente à ceia, mas a toda vida de Jesus que temos que fazer memória com nossa vida: suas palavras, seus compromissos, seus gestos, etc. A ceia resume tudo isso. Jesus atua como exemplo. É o conteúdo do nosso testemunho e, se a minha memória não está ligada ao serviço, perde sentido.

Gustavo Gutierrez concluiu falando da esperança. A Teologia é uma hermenêutica da esperança e como cristãos nos toca dar razão desta esperança (Hebr 11). Uma esperança que não vem “de mão beijada”, não nos virá de alguma parte, mas que deve ser forjada. Ter esperança não é agüentar porque “não tem outro remédio”, mas é algo a ser forjado (interessante o sentido da forja), construído, trabalhado. E conclui que é preciso ter língua de discípulo para dar vida, alento – esperança. Mas, antes, é preciso escutar como discípulo, cada manhã (Is 50, 4 – 5).

Eu não tinha a intenção de estender-me tanto, mas é que foram tantos conteúdos importantes que escutei que não pude me conter. Apenas um pouco mais...

Padre Victor Codina inspirado no ícone dos “Discípulos de Emaús” nos convida a sair ao encontro do povo e escutá-lo, iluminar a sua realidade com a Palavra de Deus, partir – compartilhar –repartir – o pão em inserção, inculturação e interculturalidade, mas com a releitura própria de América Latina, onde o sacramento é o pobre – “... na fé Cristológica está implícita a opção pelos pobres, pois não se pode falar de Cristo sem referência aos pobres” (DA 392 – 393).  Hoje a Vida Religiosa de América Latina e do Caribe está chamada a deixar o protagonismo, assumir o anonimato e a colaborar com outros, sem tanta preocupação pelo próprio futuro, mas bem, preocupar-se pelo futuro do nosso povo. “A Vida Religiosa é o rosto amoroso de Deus no meio do povo”.

A religiosa/teóloga brasileira Lucia Weiler (que bom que ali também tinha mulheres teólogas!) também nos deixou uma bela mensagem através do ícone da mulher que varre a casa em busca da moeda perdida (Lc 15, 8 – 9). Convidou-nos a celebrar estes 50 anos agradecidos por todo empenho da CLAR por ajudar a que a Vida Religiosa se reencontre com a Palavra de Deus e por insistir em que “não deixemos que a pobreza se transforme em paisagem”.

Enfim, muitos foram os conferencistas e muitas foram as conferencias e temas de reflexão, num total de 26 exposições no decorrer dos três dias. É impossível, neste momento, descrever tudo, ainda que sinteticamente. Todas estão condensadas em um bonito livro de mais de 600 páginas que, além do título do congresso, traz como título: “Memórias – Congresso CLAR 50 anos”. Imagino que não nos faltarão oportunidades e, pouco a pouco, vamos bebendo desta fonte que poderá nos ajudar nesta busca de um maior sentido para a nossa vida e de um maior realismo em nossa entrega de cada dia neste chão latino americano, tão rico e alegre, esplendoroso e belo, mas também tão machucado, sofrido porque insensível à presença do Deus da Vida.

                E agora, para concluir, deixo aqui algumas palavras de D. Pedro Casaldáliga. Ele não estava entre os congressistas, mas se fez presente e suas palavras tocaram de um modo muito eloqüente, aos nossos corações. Entre outras, disse que a CLAR é a Instituição com mais aporte à Igreja de América Latina e motivou-nos a seguir testemunhando – inclusive, “bautizado com la sangre del martírio” – la austeridad, acogida fraterna, identidad transparente, libertad de la cruz, diálogo y diaconia.  E concluiu com voz firme dizendo: “les abrazo a todos y todas en la paz subversiva del Evangelio”.

 

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Valdete Maistro Franco

Belo Horizonte, 23 de julho de 2.009.